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C E N T R A L D A P O E S I A
 


[ m i s s i v a ]                                          

 

 

 

não tenho nenhum herói nem aquele da esquina

                 que fuma cigarros sem parar em um filme de bergman

aliás nem entendo o que é ser diplomático mesmo

 

o olhar já não é mais tão certeiro em desvendar auden

                    milagres nunca existiram o dalai lama é um cara de sorte

 

o tempo dispara contra a existência de minhas esperas

 

         talvez qualquer dias desses digo para alguém que a amo

                      as ruas sempre insistem em me ocultar o que não existe

 

                ouço thelonious monck na sala meio escura e me embriago

 

        largo tudo e tento compreender o vazio que me preenche

                       mesmo sabendo que será diferente o que vou encontrar

 

não tenho pretensões lendas nunca me encantaram

             às vezes sou o que um dia de chuva é para os demais

                                   em cima da mesa várias cartas sem responder

 

 


B i o q u e  M e s i t o  é poeta, maranhense, nascido sob o sol de aquário em 3 de fevereiro de 1972. Possui participações em várias coletâneas de poesia. Faz parte do Grupo Curare de Poesia. Possui lançado o livro de poesias “A Inconstante Órbita dos Extremos”. bioquemesito@gmail.com 



Escrito por Bioque Mesito às 19h49
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[ m u i t a s  l u a s  n a  t e s t a  d o  s e n d e i r o ]

 

 

 

dos intestinos da percepção

recende o mistério das parábolas veladas

o hálito da cegueira

espalha patadas absurdas

nos costados do homem que alimenta um crucificado

 

alguns libertos das coisas fúteis

 

lançam no abismo do esquecimento

pregos enferrujados

arrancados ao madeiro dos dogmas

plantados nas almas bestas

 

novos dados são lançados ao acaso das existências

um faminto sol respira no vespeiro das almas

nunca dantes navegadas

 

o tecelão de enigmas

inaugura alquímico abecedário nas pedras inconsúteis

que fulejam

no azouguento parto de um novo cálice

 

 

é hora de beber outro vinho

 

 


P a u l o  M e l o  S o u z a  é poeta, maranhense, nascido em 06 de maio de 1960. Formado em Jornalismo pela Universidade Federal do Maranhão. Poeta atuante no cenário da poesia maranhense. Fundador dos Grupos “Poeme-se” e “Graal”. Possui lançado os livros de poesias “Oráculo de Lúcifer” e “Visagem”. paulomelosouza@ig.com.br



Escrito por Bioque Mesito às 19h32
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[ a g o r a ]

 

 

 

a manhã é linda

quando é silêncio

e se arrastam móveis pela casa...

 

 

(Toda a ilha

 agora

 é distante

 áspero

 moer de ruídos de instantes,

 por sobre

  seus sobrados)

 

 

um gavião último, em seu  vôo

 mais alto o agora: um grito

 no dia sem telhados

 

 


H a g a m e n o n  d e  J e s u s  é poeta, maranhense, nascido em 21 de setembro de 1964. Estudou Letras na Universidade Federal do Maranhão. Faz parte do Grupo Curare de Poesia. Possui lançado o livro de poesias “The Problem e /ou os Poemas de Transição".



Escrito por Bioque Mesito às 18h32
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[ c a s a  d a s  t u l h a s ]

 

 

olho para o céu e não é abril

estamos depois dos ícones

                                                                       nuvens

  restam

plásticas

     escancarando no ar feito sacolas – que nos revelam

                          para o vento –

saudades de Tribuzzi de Nauro de Gullar

da Movelaria Guanabara

     e das quitandas que se perderam

                             sem que eu de nada entendesse

eles estavam por aí e também beberam

                              esta mesma cachacinha de aroeira

indecisos entre a tarde e o bronze

tornaram-se abril de calçadas moribundas

a crítica se foi, só a ironia

                                nos resta

                                               no desgaste dos pantheons

e este gole       este

     gole

    e esta tarde fodida

 

ouço vozes:

   já morri

                                                                ou nasci

                        fora dos lábios?

 

 


A n t o n i o  A í l t o n  é poeta, maranhense. Nascido em Bacabal no dia 29 de dezembro de 1968. Formado em Letras pela Universidade Federal do Maranhão. Faz parte do Grupo Curare de Poesia. Possui lançado os livros “As Habitações do Minotauro” ( Poesia) e “Humanologia do Eterno Empenho” ( Ensaio ), ambos vencedores em concursos do "Prêmio Cidade de São Luís", Func/MA. ailtonpoiesis@yahoo.com.br /  poemasevendavais.zip.net



Escrito por Bioque Mesito às 18h18
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[ f u n e r a l  b l u e s ]                                    

 

 

Pare os relógios, cale o telefone
Evite o latido do cão com um osso
Emudeça o piano e que o tambor surdo anuncie
a vinda do caixão, seguido pelo cortejo.
Que os aviões voem em círculos, gemendo
e que escrevam no céu o anúncio: ele morreu.
Ponham laços pretos nos pescoços brancos das pombas de rua
e que guardas de trânsito usem finas luvas de breu.
Ele era meu Norte, meu Sul, meu Leste e Oeste
Meus dias úteis, meus finais-de-semana,
meu meio-dia, meia-noite, minha fala e meu canto.
Eu pensava que o amor era eterno; estava errado
As estrelas não são mais necessárias; apague-as uma por uma
Guarde a lua, desmonte o sol
Despeje o mar e livre-se da floresta
pois nada mais poderá ser bom como antes era.

 

 


W. H. Auden é poeta, inglês. Nasceu em York, em 1907. Foi também dramaturgo, editor e ensaísta. Considerado o maior poeta do século XX. Suas principais obras foram “Poemas”, “Espanha”, “A questão”, dentre outras.

Escrito por Bioque Mesito às 16h04
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[ a o s  e m u d e c i d o s ]

 

 

Oh, a loucura da grande Cidade, quando à noite

junto ao muro negro aleijadas árvores se erguem boquiabertas,

e por uma máscara de prata o Espírito do Mal se ri;

a luz com flagelo magnético a pétrea noite expulsa.

oh, o submerso dobrar dos sinos pelo anoitecer.

 

prostituta, que em convulsões de gelo pares uma criança

morta.

A ira de Deus chicoteia a fronte do homem possesso,

purpúrea pestilência, fome, verdes olhos quebra.

oh, o horrendo riso do ouro.

 

Mas quieta na caverna escura uma humanidade mais silente

sangra,

forja no duro metal a redentora cabeça.

 

 


G e o r g e  T r a k l  é poeta, austríaco. Nasceu em Salzburgo em 3 de fevereiro de 1887. Sua obra literária foi composta de peças de teatro e poesia. Uma de suas principais obras foi “Cantos da morte”.

Escrito por Bioque Mesito às 15h50
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[ m u s g o ]

 

 

Sonho amarelo da ausência
Do alto das telhas ingênuas
Aguarda

 

Aguarda para descer
Sobre as pálpebras fechadas da terra
Sobre as faces apagadas das casas
Sobre as mãos apaziguadas das árvores

 

Aguarda imperceptível
Para a mobília enviuvada
Abaixo no quarto
Revestir cuidadoso
De uma capa amarela

 

 


V a s k o  P o p a  é poeta, sérvio. Nascido em 29 de junho de 1922, em Grébenatz. É um dos mais representativos poetas contemporâneos da Iugoslávia. Suas obras já foram traduzidas para mais de 19 idiomas, sendo considerado uma figura marcante no cenário poético internacional. 



Escrito por Bioque Mesito às 15h28
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[ h e g e l i a n a :  e n  s u r s i s ]                              

 

 

 

Não simplesmente um jogo de azar

O fantasma da tua sorte te espreita do nada

Saberá trazê-lo para a vida com mãos racionais?

Ele nunca te aguarda e sempre lá esteve

Sentado, os braços cruzados, a tez amarela

De tanto esperar, e no entanto...

Basta que lhe pense bem os cílios,

Que lhe conquiste o céu da boca,

Para o mundo surgir recomposto,

Para a morte vir brincar nas tuas orelhas

De adolescente.

 

 


F e l i p e  U c i j a r a  é poeta, maranhense. Poeta da mais recente safra da poesia maranhense. É estudante de História na Universidade Estadual do Maranhão. Vencedor do 18º Festival Maranhense de Poesia da Universidade Federal do Maranhão. www.centrovelhodavida.zip.net



Escrito por Bioque Mesito às 19h58
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[ s o n e t o s  q u e  n ã o  s ã o ]

 

 

Aflição de ser eu e não ser outra.

Aflição de não ser, amor, aquela

Que muitas filhas te deu, casou donzela

E à noite se prepara e se adivinha

 

Objeto de amor, atenta e bela.

Aflição de não ser a grande ilha

Que te retém e não te desespera.

(A noite como fera se avizinha.)

 

Aflição de ser água em meio à terra

E ter a face conturbada e móvel.

E a um só tempo múltipla e imóvel

 

Não saber se se ausenta ou se te espera.

Aflição de te amar, se te comove.

E sendo água, amor, querer ser terra.

 

 


H i l d a  H i l s t  é poeta, paulista. Nascida em Jaú, em 21 de abril de 1930. Sua postura nem sempre compreendida pela sociedade da época, escandalizava. Porém Hilda era assim e foi até o fim. Seus últimos anos de vida se tornou reclusa em sua fazenda. Possui lançados os seguintes livros “Ode Fragmentada”, “Roteiro do Silêncio”, “Sobre a tua Grande Face”, “Fluxo-Floema”, dentre outros. 



Escrito por Bioque Mesito às 19h52
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[ e u ]                                                               

 

 

 

Nas calçadas pisadas
de minha alma
passadas de loucos estalam
calcâneo de frases ásperas
Onde
forcas
esganam cidades
e em nós de nuvens coagulam
pescoço de torres
oblíquas

soluçando eu avanço por vias que se encruzi-lham
à vista
de crucifixos

polícias

 

 


V l a d í m i r  M a i a k o v s k i  é poeta, russo. Nascido na aldeia de Bagdádi em 1893. Fez parte de vários movimentos revolucionários, entre eles os bolcheviques. Considerando um dos maiores poetas russos de todos os tempos.

Escrito por Bioque Mesito às 22h08
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[ n o c t í v a g o  d i v ã ]                                       

 

 

sempre duvido da imagem no espelho

eu que já esqueci a face do demônio

contornada a coleção de postais

meu veneno renega a ousadia da vida

 

em tudo há uma luz que nos separa

invernos chegam antes nas árvores

no ventre da noite o tempo se esconde

entre falidos narcisos debaixo da cama

 

 


B i o q u e  M e s i t o  é poeta, maranhense, nascido sob o sol de aquário em 3 de fevereiro de 1972. Possui participações em várias coletâneas de poesia. Faz parte do Grupo Curare de Poesia. Possui lançado o livro de poesias “A Inconstante Órbita dos Extremos”. bioquemesito@yahoo.com.br / www.centraldapoesia.zip.net



Escrito por Bioque Mesito às 18h24
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[ c i n e m a ]   

 

 

é curioso que me sinta assim:
fellini felino
tudo isso por causa dela
nem sei quem é ainda
mas quem exige documento de fadas?
simplesmente a vi:
pasolini pasolinda

 

 


C e l s o  B o r g e s  é poeta, maranhense. Radicado atualmente em São Paulo. Atua como Jornalista Free-Lance nos jornais de São Paulo. Fez parte da “Akademia dos Párias” e editor da Revista “Uns & Outros”. Possui lançado vários livros de poesias “Persona Non Grata”, “XXI”, dentre outros.



Escrito por Bioque Mesito às 18h13
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[ o s  p o e m a s ]   

 

 

Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam vôo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto;
alimentam-se um instante em cada
par de mãos e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti...

 

 


M á r i o  Q u i n t a n a  é poeta, gaúcho. Estudou no Colégio Militar de Porto Alegre. Posteriormente, dedicou-se ao jornalismo, passando a colaborar no Correio do Povo. Encara de maneira autêntica o fato poético, afirmando que escreve atendendo à íntima necessidade. Seus versos são impregnados de sentimentalismo e ternura, proporcionando aos leitores um magnífico deleite literário. A infância destaca-se relevantemente em sua temática. Embora suas obras sejam dignas dos maiores elogios foi, por assim dizer, menosprezado pela crítica nacional, que não reconheceu de maneira efetiva o talento do grande escritor.  Suas principais obras são: Sapato Florido, A Rua dos Cataventos, Canções, O Aprendiz de Feiticeiro, Espelho Mágico.



Escrito por Bioque Mesito às 18h11
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[ ó r b i t a  c o n t í n u a ]                                                   

 

 

A existência metafísica da praça se perpetua

a atmosfera transpira suor e chão, na praça a alma pulsa,

labuta, floresce.

Inominável existência

O bêbado deitado no chão, transpõe o invisível

ele é tudo o que gostaríamos de ser e não somos.

Deus temos vergonha de ti e dos anjos

pura sacanagem o sol não ter pousado nas mãos do menino

que nunca sorriu com Robson Crusoé.

O tempo emerge para além da praça

em cada praça um rato constrói sua morada.

 

 


R o s e m a r y  R ê g o  é poeta, maranhense. Formada em Letras pela Faculdade Atenas Maranhense. Apresenta uma importante colaboração na poesia maranhense. Possui lançado o livro de poesias “O Ergástulo Gozo da Palavra”. 



Escrito por Bioque Mesito às 00h02
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[ a s  c o i s a s ]

 

 

A bengala, as moedas, o chaveiro,
A dócil fechadura, as tardias
Notas que não lerão os poucos dias
Que me restam, os naipes e o tabuleiro.
Um livro e em suas páginas a seca
Violeta, monumento de uma tarde
Sem dúvida inesquecível e já esquecida,
O rubro espelho ocidental em que arde
Uma ilusória aurora. Quantas coisas,
Limas, umbrais, atlas, taças, cravos,
Nos servem como tácitos escravos,
Cegas e estranhamente sigilosas!
Durarão para além de nosso esquecimento;
Nunca saberão que nos fomos num momento.

 

 


J o r g e  L u i s  B o r g e s  é poeta, argentino. Nascido em 1899 na cidade de Buenos Aires. É considerado o maior poeta argentino de todos os tempos e, sem dúvida, um dos mais importantes escritores da literatura mundial. Possui lançados os livros “O Aleph”, “História Universal da Infâmia”, “O Livro dos Seres Imaginários”, “Elogio da Sombra”, dentre outros.  



Escrito por Bioque Mesito às 00h01
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[ b l a c k h e a t h ]

 

 

A poesia me chama entre as árvores

de folhas incompletas.

O vento é frio, apesar de terno.

Corvos mancham o azul sem peso

desta tarde que não começa.

O trem também me chama.

E não vou.

 

 


M a r i a  E s t h e r  M a c i e l  é poeta, mineira. Nascida em Patos de Minas em 1963. É Pós-Doutora em “Estéticas do Artifício: Peter Greenaway e Jorge Luis Borges”. Possui publicados os seguintes livros “O Livro de Zenóbia”, “Memória das Coisas”, “Triz”, “As Vertigens da Lucidez”, “Vôo Transverso”, dentre outros.



Escrito por Bioque Mesito às 00h00
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[ d e s c o n e c t a d o s  d e s t i n o s ]                   

 

 

pelas ruas de são luís

ou de outra cidade 

paralelas costelas

de fome e frio caminham

multifacetados destinos

que se cruzam

nos sinais fechados

 

estão lá todos os dias

arremessando seus dados

circos sem lona armam

na contramão de todos

limpam vidros vendem jornais

tentam a todo custo sobreviver

com alguns trocados

 

 


B i o q u e  M e s i t o  é poeta, maranhense, nascido sob o sol de aquário em 3 de fevereiro de 1972. Possui participações em várias coletâneas de poesia. Faz parte do Grupo Curare de Poesia. Possui lançado o livro de poesias “A Inconstante Órbita dos Extremos”. bioquemesito@yahoo.com.br / www.centraldapoesia.zip.net



Escrito por Bioque Mesito às 17h28
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[ n o  m e i o  d o  c a m i n h o ]


No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no mei do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.


Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

 

 


C a r l o s  D r u m m o n d  d e  A n d r a d e  é poeta, mineiro. Nascido em Itabira do Mato Dentro, em 31 de outubro de 1902. É considerado um dos melhores poetas brasileiros. Sua poesia é marcada pelos traços quotidianos, aliado a um lirismo espetacular. Possui publicados os seguintes livros “Alguma Poesia”, “Sentimento do Mundo”, “Brejo das Almas”, “Boitempo”, dentre outros.



Escrito por Bioque Mesito às 17h21
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[ j e a n  g e n e t  n a  f r a n ç a  e q u i n o c i a l ]

 

Em seu exílio imaginário
na França Equinocial,
o poeta Jean Genet
se manteve à margem
das homenagens oficiais.

Recusou discretamente
o chá da Academia,
convite para ministrar Aula Inaugural
da UFMA
e almoço com o Chefe do Executivo

Mas tornou-se habitué
de longas caminhadas noturnas
pela devastada Praia Grande,
onde era visto com frequência
acompanhado pelo fantasma do Erasmo
Dias

 

 


F e r n a n d o  A b r e u  é poeta, maranhense. Fez Parte da “Akademia dos Párias”. Possui lançado o livro de poesias “Relatos do Escambau”.

Escrito por Bioque Mesito às 17h16
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[ c a r a c o l  e s t r e l a d o ]                                                     

 

Deslizaste depois da chuva
Depois da chuva de prata

As estrelas com seus ossos
Sós construíram-te uma casa
Aonde a levas sobre uma toalha

O tempo capenga te persegue
Para alcançar-te para esmagar-te
Estende os chifres caracol

Te arrastas por uma face gigante
Que jamais hás de fitar
Direto para a boca do nada

Retorna à linha da vida
À minha palma de mão sonhada
Enquanto não é tarde demais

E deixa-me como herança
A toalha mágica de prata

 

 


V a s k o  P o p a  é poeta, sérvio. Nascido em 29 de junho de 1922, em Grébenatz. É um dos mais representativos poetas contemporâneos da Iugoslávia. Suas obras já foram traduzidas para mais de 19 idiomas, sendo considerado uma figura marcante no cenário poético internacional.



Escrito por Bioque Mesito às 12h27
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[ k u a r u p ]


de seis milhões

em mil e quinhentos

restou apenas

uma legião

de vultos

soletrando

uma algazarra

zorra,

um kuarup de calça jeans.

 

os outros foram mortos

até os que estão vivos

até os que não nasceram.

 

 


S a l g a d o  M a r a n h ã o  é poeta, maranhense, nascido em Caxias. Tem 48 anos e vive no Rio de Janeiro desde 1973. Seus primeiros poemas foram editados na antologia Ebulição da escrivatura, publicada pela Civilização Brasileira, em 1978.  Além deste, publicou: Punhos da serpente (Rio de Janeiro, Achiamé, 1989); Palávora (Rio de Janeiro, Sette Letras, 1995 ); O beijo da fera (Rio de Janeiro, Sette Letras, 1996); Mural de ventos (Rio de Janeiro, José Olympio, 1998). Este último rendeu ao poeta o Prêmio Jabuti. 

Escrito por Bioque Mesito às 12h24
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[ p ó l v o r a  p a r a  d e t o n a r  e s t r e l a s ]  

 

 

Aqui onde moro o céu é pouco estrelado
também não dá pra ver o mar.
Mas nesse fim de um lugar
eu pingo lágrimas que brilham estrelas.
Meu coração subterrâneo ri um riso bobo,
solidário, derrotado,
tentando prender com graça as cinco pontas
da vida
Que proclama aos quatro cantos
enquanto chora solitário 
                               Aqui não tem
                               estações
                               mas conto
                               pétalas
                               das minhas
                               dores,

 

 


L i s a r d o L o p e s  é poeta. Possui um blog na Internet de divulgação de seus poemas. lisardolopes@hotmail.com / 100poemasimaginarios.zip.net 



Escrito por Bioque Mesito às 12h20
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[ p r o p ó s i t o ]

 

Viver pouco mas
viver muito
Ser todo o pensamento
Toda a esperança
Toda a alegria
ou angústia — mas ser

Nunca morrer
enquanto viver

 

 


E u n i c e  A r r u d a  é poeta, paulista. Nascida em Santa Rita do Passa Quatro, em 1939. É pós-graduada em semiótica. Tem participações em várias antologias no Brasil. Possui as seguintes obras editadas “Chão Batido”, “À Beira”, “Há Estações”, dentre outras.

Escrito por Bioque Mesito às 12h19
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[ a o  s o l ]                         

     

 

          

          Quando caminho

Caminho sobre o que fui ou sou

                 Caminho

          De mim para mim,

        eu (e o quem grito):

"AO SOL EM SAL EU SOU!" 

              Fixo-me.

 

 


H a g a m e n o n  d e  J e s u s  é poeta, maranhense, nascido em 21 de setembro de 1964. Estudou Letras na Universidade Federal do Maranhão. Faz parte do Grupo Curare de Poesia. Possui lançado o livro de poesias “The Problem e /ou os Poemas de Transição".



Escrito por Bioque Mesito às 13h55
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[ o u t r a  f a c e ]

 

 

Amarga ânsia posta em cálice.

Nenhuma das duas feces da moeda...

Nem cara, nem coroa,

Apenas o que em mim ressoa.

 

 


R o s e m a r y  R ê g o  é poeta, maranhense. Formada em Letras pela Faculdade Atenas Maranhense. Apresenta uma importante colaboração na poesia maranhense. Possui lançado o livro de poesias “O Ergástulo Gozo da Palavra”. 



Escrito por Bioque Mesito às 13h55
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[ a d o l e s c ê n c i a ]

 

 

esboço do sexo feminino

                na bananeira do quintal

 

 


P a u l o  M e l o  S o u z a  é poeta, maranhense, nascido em 06 de maio de 1960. Formado em Jornalismo pela Universidade Federal do Maranhão. Poeta atuante no cenário da poesia maranhense. Fundador dos Grupos “Poeme-se” e “Graal”. Possui lançado os livros de poesias “Oráculo de Lúcifer” e “Visagem”. paulomelosouza@ig.com.br



Escrito por Bioque Mesito às 13h55
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[ m ã o s ]                                                                                     

 

 

as mãos sobre o papel

como se fora um barco

o papel

mas na verdade um branco

que dói

 

as mãos sobre o papel

como se esperassem um sonho

nascer

mas na verdade é um sino

que nasce

 

as mãos sobre o papel

como que derrotadas

por hoje

na verdade a derrota

não houve

 

as mãos sobre o papel

como se não tivessem nada

a fazer a vida inteira

na verdade o tempo

não importa

 

 


B i o q u e  M e s i t o  é poeta, maranhense, nascido sob o sol de aquário em 3 de fevereiro de 1972. Possui participações em várias coletâneas de poesia. Faz parte do Grupo Curare de Poesia. Possui lançado o livro de poesias “A Inconstante Órbita dos Extremos”. bioquemesito@yahoo.com.br / www.centraldapoesia.zip.net



Escrito por Bioque Mesito às 17h05
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sentado na cadeira do poeta

                                        eu vi o mar

o mar & sua serpente sépia

o fervor a pronúncia áspera das águas

de uma palavra que conduza os mortos para o outro mundo

boca que a loucura gostaria de ter

mar em que o último irmão se removeu até o fundo

arrastado pelos pássaros

                                     cansado de nada encontrar

tudo que não fala tem uma segunda morte

 

 


N e y  P a i v a  é poeta, ensaísta, artista plástico, paraense. Nascido em 1964 na cidade de Belém. Colabora com a revista literária Polichinello. É autor dos seguintes livros “Não Era Suicídio Sobre a Relva”, “Poetas Não se fazem Marinheiros”, “Nave do Nada.”

Escrito por Bioque Mesito às 17h05
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[ a o  l a d o  d a  t a r d e ]

 

 

Quando naquela tarde

depois da chuva, ao lado da janela,

olhava o arco-íris, lembrei

que aqui dentro o escuro prevalecia

longamente perto do amor.

 

Daqueles dias recordo

as treze estrelas contadas

e a cada uma dizia:

aquela que cai infinitamente

é para lembrar de nossas alegrias. Mas

se indagar pelas outras respondo:

o amor tem ponto.

 

 


M a r i o  R o s a  é poeta, tradutor e professor de Literatura brasileira no UNI-BH. Possui poemas publicados em várias revistas literárias espalhadas pelo Brasil.

Escrito por Bioque Mesito às 17h04
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nalgum lugar em que eu nunca estive, alegremente além              
de qualquer experiência, teus olhos têm o seu silêncio:
no teu gesto mais frágil há coisas que me encerram,
ou que eu não ouso tocar porque estão demasiado perto

 

teu mais ligeiro olhar facilmente me descerra
embora eu tenha me fechado como dedos, nalgum lugar
me abres sempre pétala por pétala como a Primavera abre
(tocando sutilmente,misteriosamente) a sua primeira rosa

 

ou se quiseres me ver fechado, eu e
minha vida nos fecharemos belamente,de repente,
assim como o coração desta flor imagina
a neve cuidadosamente descendo em toda a parte;

 

nada que eu possa perceber neste universo iguala
o poder de tua imensa fragilidade:cuja textura
compele-me com a cor de seus continentes,
restituindo a morte e o sempre cada vez que respira

 

(não sei dizer o que há em ti que fecha
e abre;só uma parte de mim compreende que a
voz dos teus olhos é mais profunda que todas as rosas)
ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas

 

 


E.  E.  C u m m i n g  é poeta, norte-americano. Nascido em 14 de outrubro de 1894, em Cambridge, Massachusetts. Estudou em Harvard, especializando-se em literatura grega. Foi amigo de Ezra Pound. Sua poesia era altamente revolucionária.



Escrito por Bioque Mesito às 20h02
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[ e  a s s i m  e m  n í n i v e ]

 

 

Sim! Sou um poeta e sobre minha tumba
Donzelas hão de espalhar pétalas de rosas
E os homens, mirto, antes que a noite
Degole o dia com a espada escura.

 

Veja! não cabe a mim
Nem a ti objetar,
Pois o costume é antigo
E aqui em Nínive já observei
Mais de um cantor passar e ir habitar
O horto sombrio onde ninguém perturba
Seu sono ou canto.
E mais de um cantou suas canções
Com mais arte e mais alma do que eu;
E mais de um agora sobrepassa
Com seu laurel de flores
Minha beleza combalida pelas ondas,
Mas eu sou poeta e sobre minha tumba
Todos os homens hão de espalhar pétalas de rosas
Antes que a noite mate a luz
Com sua espada azul.

 

Não é, Ruaana, que eu soe mais alto
Ou mais doce que os outros. É que eu
Sou um Poeta, e bebo vida
Como os homens menores bebem vinho.

 

 


E z r a  P o u n d  é poeta, crítico de literatura, tradutor, norte-americano. Nascido em 30 de outubro de 1885. Considerado um dos poetas que mais contribuiu para o desenvolvimento da poesia moderna. Dentre seus livros mais importantes, destaca-se “Os Cantos”, um poema-épico da modernidade. 



Escrito por Bioque Mesito às 20h01
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[  o  l a m e n t o  d a  v i ú v a  e m  p l e n a  p r i m a v e r a ]

 

 

O pesar é o meu quintal
onde a grama nova
flameja como tantas vezes
flamejou antes não porém
com o fogo gélido
que se fecha este ano à minha volta.
Trinta e cinco anos
vivi com meu marido.
A ameixeira hoje está branquinha
de pencas de flores.
Pencas de flores
carregam os galhos de cerejeira
e dão a alguns arbustos cor
amarela e vermelha a outros
mas o pesar dentro de mim
é mais forte que elas ·
pois embora fossem a minha alegria
antigamente, eu hoje as vejo
e Ihes volto as costas deslembrada.
Hoje o meu filho me disse
que para lá dos prados,
na orla da floresta cerrada,
viu à distância
árvores de flores brancas.
Bem que eu gostaria
de ir até lá
para deixar-me tombar sobre essas flores
e afundar no brejo perto delas.

 

 


W i l l i a m  Ca r l o s  W i l l i a m s  é poeta, norte-americano. Nascido em 1883. Foi um dos poetas mais importante da poesia norte-americana. Sua poesia do imaginário influenciou e continua influenciando vários poetas.



Escrito por Bioque Mesito às 20h01
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[ e s c r i t o  c o m  t i n t a  v e r d e ]

 

 

A tinta verde cria jardins, selvas, prados,
folhagens onde gorjeiam letras,
palavras que são árvores,
frases de verdes constelações.

Deixa que minhas palavras, ó branca, desçam e te cubram
como uma chuva de folhas a um campo de neve,
como a hera à estátua,
como a tinta a esta página.

Braços, cintura, colo, seios,
fronte pura como o mar,
nuca de bosque no outono,
dentes que mordem um talo de grama.

Teu corpo se constela de signos verdes,
renovos num corpo de árvore.
Não te importe tanta miúda cicatriz luminosa:
olha o céu e sua verde tatuagem de estrelas.

 

 


O c t a v i o  P a z  é poeta, ensaísta, mexicano. Nascido em Mixcoac em 1937. Possui publicado uma série de livros de poesia e crítica literária. Entre seus principais livros estão “Pedra do Sol” e “Blanco”.

Escrito por Bioque Mesito às 20h00
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[ c a n ç ã o  d o  e x í l i o ]                                      

 

Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas tem mais flores,
Nossos bosques tem mais vida,
Nossa vida mais amores.

Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o sabiá.

Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar - sozinho, à noite -
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu'inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

 

 


A n t ô n i o  G o n ç a l v e s  D i a s  é poeta, maranhense. Nascido em 10 de agosto de 1823 em Caxias. Formou-se em Direito na Universidade de Coimbra, retornando ao Brasil em 1845. Pertenceu à primeira geração do Romantismo Brasileiro. Delicado e melancólico, criou o indianismo romântico, impondo-se como uma das maiores figuras da nossa literatura. É considerado o mais maduro dos românticos brasileiros, o nosso maior poeta romântico. Suas principais obras são “Primeiros Cantos”, “Segundos Cantos”, “Últimos Cantos”, “Sextilhas de Frei Antão”, “I-Juca Pirama”, “Os Timbiras”, dentre outros. 



Escrito por Bioque Mesito às 18h24
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[ p r o f e c i a  d e  f e i r a ]

 

 

tens essência e proeminência
pra seres capital da Grécia
uma acrópole em cascalhos
um coliseu em frangalhos
uns péricles convergentes
uns sócrates detergentes
grandes quebradores de pratos
uma esfinge com esparadrapo
guerra entre caixas de som
olimpíadas no pantheon
umas cabeças coroadas
umas verdades acaloradas

 

reza e confia: um dia menina
serás uma grande Teresina

 

 


L u í s  A u g u s t o  C a s s a s  é poeta, maranhense. Possui publicados os livros de poesias “Répública dos Becos”, “A Paixão Segundo Alcântara”, “Rosebud”, “O Retorno da Aura”, dentre outros.



Escrito por Bioque Mesito às 18h07
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[ f i l a  i n d i a n a ]


Um atrás do outro, atrás um do outro,
ano após ano, ano após outros,
minuto após minuto, século
após séculos, continuam

(a conduzir seus madeiros
na perícia dos próprios dramas)

um atrás do outro, atrás um do outro,
ano após ano, ano após outros,
minuto após minuto, século
após séculos, e de novo

um atrás do outro, atrás um do outro,
até a surdez final do pó.

 

 


N a u r o  M a c h a d o  é poeta, maranhense. Nascido em São Luís do Maranhão, no dia 2 de agosto de 1935. Um dos poetas brasileiros mais fecundos e importantes de todos os tempos. Possui lançado os seguintes livros de poesias “Campo sem base”, “O exercício do Caos”, “Do eterno indeferido”, “Os parreirais de Deus”, “Masmorra didática”, “A rosa blindada”, “A travessia do Ródano”, “A rocha e a rosca”, dentre outros.



Escrito por Bioque Mesito às 18h02
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[ e l o g i o  d o  a l e x a n d r i n o ]


Asclepiádeo verso: à evolução do poema
Das sestas, cadenciar d'altas antigüidades,
já porque bipartido em fúlgidas metades
Reata em conjunção opostos de um dilema,
E já por ser de gala a forma do matiz
Heleno na escultura e lácio na linguagem
Reacesda, de Alexandre, em fogos de Paris:
Paris o tom da moda, o bom gosto, a roupagem;
Que desperta aos tocsins, galo às estrelas d'alva,
Que faz revoluções de Filadélfia às salvas
E o verso-luz, fardeur das formas, de grandeza,
o verso-formosura, adornos, lauta mesa
Ond' tokay, champanh', flor, copos cristal-diamantes
Sobrelevam roast-beef e os queijos e o pudding.
Porém, mens divinior, poesia é o férreo guante:
Ao das delícias tempo, o fácil verso ovante,
o verso cor de rosa, o de oiro, o de carmim,
Dos raios que o astro veste em dia azul-celeste;
E para os que têm fome e sede de justiça,
O verso condor, chama, alárum, de carniça,
D'harpas d'Ésquilus, de Hugo, a dor, a tempestade:
Que, embora contra um deus "Figaro" impiedade
Vesgo olhinho a piscar diga tambour-major,
Restruge alto acordando os cândidos espíritos
Às glórias do oceano e percutindo os gritos
Réus. Ao belo trovoar do magno Trovador
Ouve-se afinação no mundo brasileiro,
Acorde tão formoso, hodierno, hospitaleiro,
Flamívomo social, encantador. Fulgura
Luz de dia primeiro, a nota formosura,
Que ao jeová-grande-abrir faz novo Éden luzir.

 

 


S o u s â n d r a d e  é poeta, maranhense. Nascido na vila de Guimarães. Formou-se em Letras pela Sorbonne, em Paris. Republicano convicto e militante, transfere-se, em 1870, para os Estados Unidos. Retornando ao Maranhão, comemora com entusiasmo a Proclamação de República. Morre abandonado e na miséria, sendo considerado louco. Sua obra foi esquecida durante décadas. Resgatada no início da década de 1960, pelos poetas Augusto e Haroldo de Campos, revelou-se uma das mais originais e instigantes de todo o nosso Romantismo. Em Nova Iorque, publica sua maior obra, o poema longo “O Guesa Errante”.



Escrito por Bioque Mesito às 17h59
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[ c o n s u m a ç ã o ]     

                                          

 

atravessando lagoas de metamorfoses biológicas       

sem tomar conhecimento do fascínio dos garanhões

Dasdores

sem sequer ter visto as bolhas de águas turquesas               

o murmúrio dos golfinhos de F. de Noronha

tomou água corrosiva

as nuvens peregrinas regrediram

ao perder o senso de vista

penetraram em seu ventre

ela ejaculou as façanhas

na segunda vez  que sorveu tal água

 fisgada pelas lascívias

foi-se

para os pés da ecosfera

imaginando

a magia

do mundo

da lua  

 

 


G e a n e  L i m a  F i d d a n  é poeta, maranhense. Professora de Língua Inglesa e Literatura. Coordena um projeto de Literatura na Universidade Virtual do Maranhão. Possui algumas participações em antologias, festivais e eventos de poesia. geanerama@hotmail.com



Escrito por Bioque Mesito às 12h10
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[ n o  t r e m  d e  z h o u  y u ]                                           

                                    

                                em memória de meu pai Araújo (1950-2006) 

 

 

o tempo elege sempre uma vida para levar

mas aprendi que não existe certeza

antes corria dos trilhos incendiados

para compreender a perda que imaginamos

nem todo dia é para comemorarmos

existe uma parada ela estava lá silenciosa

há uma música que sempre ouço pela manhã

faça chuva ou quando lembro de meu pai

estão disfarçados os amantes que mandam flores

sem meus valores não julgo ninguém

meu filho acha engraçado eu dormir de pijama

a vida é uma série de confusos movimentos

escolhi o vazio dos lugares sem nomes

para mutilar lembranças que nunca existiram

 

 


B i o q u e  M e s i t o  é poeta, maranhense, nascido sob o sol de aquário em 3 de fevereiro de 1972. Possui participações em várias coletâneas de poesia. Faz parte do Grupo Curare de Poesia. Possui lançado o livro de poesias “A Inconstante Órbita dos Extremos”. bioquemesito@yahoo.com.br / www.centraldapoesia.zip.net



Escrito por Bioque Mesito às 15h20
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[ a  v e r g o n h a ]

 

 

Estou me procurando a cada sombra

deste contraditório desencanto.

Estas mornas lágrimas cintilam

um afeto ruidosamente indeciso.

 

Já não sei se hoje estou despido

ou se neste Vale encontrarei o Manto

com que haverei nas tardes de cobrir

a nudez da minha vergonha no Paraíso.

 

 


J o s é  M a r i a  N a s c i m e n t o  é poeta, maranhense. Nascido em  São Luís no dia 18 de setembro de 1940. Desde cedo se apaixona pelo fazer poético. Durante grande parte da sua vida se dedicou aos vícios do álcool e era freqüentador do lado boêmio de São Luís. Porém a vida de boêmio aos poucos foi deixando. É um poeta de  versos fortes e que sempre valoriza a alma humana. Suas principais obras são “Constelação Marinha”, “Ressonância do Barro”, “Harmonia do Conflito”, dentre outras.

Escrito por Bioque Mesito às 15h20
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[ c o r r i d a ]

 

 

No avanço do tempo corre a vida,

mas nesse tempo há pedras espalhadas,

pedras agudas, carnes esfarrapadas,

sangue jorrando de cada ferida.

 

O tempo açoita a vida noite e dia

e ele chora, tropeça, levanta e continua.

Só e esperança anima a travessia;

e a alma corre, descabelada e nua.

 

E a vida não tem tempo, ao tempo, em meio,

de ver o belo existente no caminho;

não perder na corrida é o anseio;

sua atenção conserva em desalinho.

 

No embrião da vida, no tempo, avanço.

Subidas e descidas ─ tantas conheço:

e na vertigem do correr me canso.

Procuro, em vão, meu horizonte do começo.

 

 


D a g m a r  D e s t e r r o  é poeta, maranhense. Nascido em  São Luís no dia 9 de setembro de 1927. Formou-se em Pedagogia pela Universidade Federal do Maranhão. Sua poesia sempre foi admirada pela lírica e imagética das palavras. Considerada uma das poetas mais importantes do Maranhão. Suas obras de destaque são “Segredos dispersos”, “Parábola do Sonho Quase Vida”, “Pedra Viva”, dentre outras.

Escrito por Bioque Mesito às 15h18
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[ s o n e t o  d a  f e l i c i d a d e ]

 

 

Não receies, amor, que nos divida

um dia a treva de outro mundo, pois

somos um só, que não se faz em dois

nem pode a morte o que não pode a vida.

 

A dor não foi em nós terra caída

que de repente afoga mas depois

cede à força das águas. Deus dispôs

que ela nos encharcasse indissolvida.

 

Molhamos nosso pão quotidiano

na vontade de Deus, aceita e clara,

que nos fazia para sempre num.

 

E de tal forma o próprio ser humano

mudou-se em nós que nada mais separa

o que era dois e hoje é apenas um.

 

 


Odylo Costa, f i l h o  é poeta, maranhense. Nascido em  São Luís no dia 14 de dezembro de 1914. Formou-se em Direito na Universidade do Brasil–RJ. Porém segue a carreira de jornalismo, trabalhando em vários Órgãos da Imprensa Brasileira. Sendo considerado um dos grandes poetas líricos brasileiros. Suas principais obras são “Cantiga Incompleta”, “Arca da Aliança”, “Notícias de Amor”, dentre outros.

Escrito por Bioque Mesito às 15h04
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[ p o e m a ]

 

 

Um cão ladrou

na noite obscura

tremores frios

de inanição

A mulher magra

esperou cansada

que a carne exausta

fosse chamariz

Poucos sexos jovens

se investigaram

muitos não conseguiram

fugir à frustração

Alguns descansaram

outros se diluíram

o caixote de lixo

esperou esperou

Depois rompeu

a madrugada

 

 


B a n d e i r a  T r i b u z i  é poeta, maranhense. Nascido em 1927. Considerado o poeta que iniciou o modernismo no Maranhão. Sendo por muitos estudiosos um dos maiores poetas do século XX da poesia maranhense. Suas principais obras são “Alguma Existência”, “Rosa de Esperança”, “Pele & Osso”, dentre outras.

Escrito por Bioque Mesito às 15h03
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 [ p o e m a  s u j o ]                                                   

 

 

turvo turvo

a turva

mão do sopro

contra o muro

escuro

menos menos

menos que escuro

menos que mole e duro menos que fosso e muro: menos que furo

escuro

mais que escuro:

claro

como água? como pluma? claro mais que clero: coisa alguma

e tudo

(ou quase)

um bicho que o universo fabrica e vem sonhando desde as entranhas

azul

era o gato

azul

era o galo

azul

o cavalo

azul

teu cu

 

 


F e r r e i r a  G u l l a r  é poeta, maranhense. Nasceu em 10 de setembro de 1930, na cidade de São Luís. É um dos criadores da Poesia Concreta no Brasil. Possui lançado os livros de poesias “A Luta Corporal”,  “Crime na Flora” “O Poema Sujo”, “Barulhos”, dentre outros.



Escrito por Bioque Mesito às 18h56
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[ a r q u i t e t u r a ]                                                  

 

 

Um dia escreverei um poema

que não precise dizer nada

um poema: apesar das palavras

arpejo relógio ou pedra

silêncio que ninguém suporte

lâmina dentro da goela

de João Cabral de Melo Neto

voz e fino topázio

a linguagem apenas tece

a trama de nehuma sintaxe

um dia escreverei um poema

no azul vazio da lousa

em ecos um silêncio adormece

 

 


L u í s  I n á c i o  A r a ú j o  é poeta, maranhense. Nascido em dezembro de 1968. É formado em Direito pela Universidade Federal do Maranhão. Escreve desde cedo, quando ainda era adolescente. Possui lançado o livro de poesias “Vôo Ávido”.



Escrito por Bioque Mesito às 00h42
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[ h e r m é t i c o ]

 

 

o cadáver da pedra se apavora

                   com o esqueleto da própria sombra

     no músculo das palavras

                            cabe toda a carta celeste

       o maxilar da morte anoitece

                      devorando omoplatas de cetim

um poeta se diverte

              espancando os dentes da máquina de escrever

 

 


P a u l o  M e l o  S o u z a  é poeta, maranhense, nascido em 06 de maio de 1960. Formado em Jornalismo pela Universidade Federal do Maranhão. Poeta atuante no cenário da poesia maranhense. Fundador dos Grupos “Poeme-se” e “Graal”. Atualmente possui uma coluna “Alça de Mira” que divulga poesia às sextas-feiras no Jornal Pequeno. Possui lançado os livros de poesias “Oráculo de Lúcifer” e “Visagem”. paulomelosouza@ig.com.br



Escrito por Bioque Mesito às 00h41
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[ o f e r e n d a ]

 

 

Venho te oferecer meu coração

como o cansaço se oferece aos amantes

o suor aos corpos exaustos

depois de definitivo abraço

Venho te oferecer meu coração

como a lua se oferece à noite

e o vento à tempestade

Venho te oferecer meu coração

como o peixe se oferece à captura

no engano do anzol

 

 


L a u r a  A m é l i a  D a m o u s  é poeta, maranhense. Nascida em 10 de abril de 1945 em Turiaçu. Fez parte de vários movimentos literários na década de 70,80 e 90. Possui lançado os livros de poesias “Brevíssima Canção do Amor Constante”, “Cimitarra”, dentre outros.



Escrito por Bioque Mesito às 00h39
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[ c a o s ]

 

 

não há ordem

somente zelo puro

interceder de ventos, chuvas e morte

andar

como travis, de win wenders

como a foto de robert frank

como jack kerouac

como trens

abandonando nas estações                     

extenuadas amantes dos que não param

 

 


G e r a l d o  I e n s e n  é poeta, contista, paranaense, radicado em São Luís. Formado em Jornalismo pela Universidade Federal do Maranhão. Possui lançado o livro de contos “O Legado de Torres”.  giensen@uol.com.br / www.divinacomedia.zip.net



Escrito por Bioque Mesito às 00h38
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[ t a r a ]

 

 

Observo-me e nada concluo

Ânsia de concluir que me atrasa

Sendo dois e mil, duzentos olhos

De cristal que me empanam

 

E tem as pernas, instrumento

De alucinação, veredas e calo

 

Tem a calva por onde me transporto

Rumo ao céu transviado

Nuvens que me revolvem

E que me apontam armas

 

Tem as manchas que se calam

As máculas, os agregados que me falam

No meio da noite futilidades malsãs

 

Tenho a mim que me estendo

Verborragicamente

Nos sinais, semáforos de terra

Mistura de ar e luz e degredo e tara!

 

 


F e l i p e  U c i j a r a  é poeta, maranhense. Poeta da mais recente safra da poesia maranhense. É estudante de Psicologia na Universidade Federal do Maranhão. Vencedor do 18º Festival Maranhense de Poesia da Universidade Federal do Maranhão. www.centrovelhodavida.zip.net



Escrito por Bioque Mesito às 00h37
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[ v i o l e t a s  d a n ç a m  n o  p l a y g r o u n d ]         

 

 

sete e meia da manhã

um menino

busca o pão

a família

o espera

 

oito e vinte e cinco

um carro

o atropela

 

doze e quinze

a família

fica sabendo

 

dezesseis e trinta e sete

seu corpo

é sepultado

 

sete e meia da manhã

do dia seguinte

o pão aumenta

uma família

diminui

 

 


B i o q u e  M e s i t o  é poeta, maranhense, nascido sob o sol de aquário em 3 de fevereiro de 1972. Possui participações em várias coletâneas de poesia. Faz parte do Grupo Curare de Poesia. Possui lançado o livro de poesias “A Inconstante Órbita dos Extremos”. bioquemesito@yahoo.com.br / www.centraldapoesia.zip.net / www.afila.zip.net

Escrito por Bioque Mesito às 18h51
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[ c â m e r a  i n d i s c r e t a ]

 

 

o poeta lírico-barbado

babuja

              no bar

                          seus poemas

 

boa tarde

elegante bardo

cuidado com o vento

suas folhas íntimas

não resistem ao menor sopro

 

o coração sobre a mesa

breve o garçom virá removê-lo

 

um barco atraca no cais

 

lugar de coração é no peito

teimoso bardo

curió pardo exposto aos turistas

 

a mulher burguesa

batom e ruge

ergue o braço

garça o garçom passa

 

o poeta velho brada:

liturgia do inútil

 

tudo desaba

asa do vento navalhada

na tarde provinciana

e cinza

 

 


R o b e r t o  K e n a r d  é poeta, maranhense. Nascido em São Luís. É Diretor de Redação do jornal Diário da Manhã. Tem publicados os livros “No Meio da Vida” (poemas -1980), “Do Lado Esquerdo do Corpo” (poemas - 1982), “O Camaleão no Espelho” (poemas - 1990) e “O Bazar de Gutenberg” (crítica literária - 1993). A sair em março/abril “Ozerodacidade” (poemas). robertokenard@gmail.com / robertokenard.blog.uol.com.br   

Escrito por Bioque Mesito às 18h44
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[ o c a s o ]

 

 

Era uma vez

eu e o tempo.

 

               A sós.

 

Sobrando

 

           no Boqueirão,

quando um sol sem quilha

ruía

 

             n’ Ave

               Maria.

 

De fat(u)o

só sobrou

a coragem.

 

               Continuemos.

 

 


A n t o n i o  A í l t o n  é poeta, maranhense. Nascido em Bacabal no dia 29 de dezembro de 1968. Formado em Letras pela Universidade Federal do Maranhão. Faz parte do Grupo Curare de Poesia. Possui lançado os livros “As Habitações do Minotauro” ( Poesia) e “Humanologia do Eterno Empenho” ( Ensaio ), ambos vencedores em concursos do "Prêmio Cidade de São Luís", Func/MA. ailtonpoiesis@yahoo.com.br /  poemasevendavais.zip.net



Escrito por Bioque Mesito às 18h28
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[ a  s e r p e n t e ]

 

 

Carrego sobre mim não o poema

contudo, a vida sobre

as asas rotineiras

como quem conhece

o desespero ou como se pudesse

A tranqüilidade das pêras

 

Mesmo inteira

Sou como a dúvida

Sobre cada beijo

 

 


H a g a m e n o n  d e  J e s u s  é poeta, maranhense, nascido em 21 de setembro de 1964. Estudou Letras na Universidade Federal do Maranhão. Faz parte do Grupo Curare de Poesia. Possui lançado o livro de poesias “The Problem e /ou os Poemas de Transição".



Escrito por Bioque Mesito às 18h21
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[ s a n t o  e p i t á f i o  d a  ú l t i m a  n e c e s s i d a d e ]

 

 

                         da minha última invenção

                 não esperem

                                       equilíbrio

                                                       pois

                                  a água de tudo

                  que ainda resta

                                        estremece madrugadas

         e uma palavra a mais

                                                    cala

                                   o silêncio oxidável

 

 


D y l  P i r e s  é poeta, maranhense, nascido em 01 de setembro de 1970. Estudante de Artes Cênicas na Universidade Federal do Maranhão. Faz parte do Grupo Curare de Poesia. Possui lançado o livro de poesias “O Círculo das Pálpebras”. dylpires@yahoo.com.br / www.esperandogodot.zip.net



Escrito por Bioque Mesito às 18h20
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[ 1 1º s o n e t o  l u x u r i o s o ]                                    

 

 

Para provar tão célebre caralho,
Que me derruba as orlas já da cona,
Quisera transformar-me toda em cona,
Mas queria que fosses só caralho.

Se eu fosse toda cona e tu caralho,
Saciaria de vez a minha cona,
E tiraria tu também da cona
Todo prazer que ali busque o caralho.

Mas não podendo eu ser somente cona,
Nem inteiro fazeres-te caralho,
Recebe o bem querer da minha cona.

E vós tomai, do não assaz caralho,
O ânimo pronto; baixai a vossa cona,
Enquanto enfio fundo o meu caralho.

Depois, sobre o caralho
Abandonai-vos toda com a cona,
Que caralho eu serei, vós sereis cona.

 

 


P i e t r o  A r e t i n o  é poeta, italiano. Nascido em Arezzo no dia 20 de abril de 1492. Famoso por suas violentas críticas aos grandes da época, aos artistas e aos religiosos. Viveu principalmente em Veneza. De família humilde, não teve formação clássica. Conhecido por seus escritos pornográficos, sobretudo I ragionamenti (1534-1536; As argumentações), os Capitoli (1540; Capítulos), as canções líricas e os Sonetti lussuriosi (1525; Sonetos luxuriosos), Aretino é, porém, mais importante como jornalista. Suas críticas mordentes e às vezes caluniosas eram divulgadas no Pasquino, em Roma, e em Delle Lettere (1538-1557), distribuídos em volantes.

Escrito por Bioque Mesito às 21h21
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[ u m a  p e d r a ]                                                     

 

 

Tenho sempre fome desse
Lugar que nos foi espelho,
Das frutas curvadas dentro
De sua água, luz que salva,

 

E gravarei sobre a pedra
Lembrança de que brilhou
Um círculo, fogo ermo.
Acima é rápido o céu

 

Como ao voto a pedra é fechada.
Que buscávamos? Talvez
Nada, a paixão só é sonho.
Nada pedem suas mãos.

 

E de quem amou uma imagem,
Por mais que o olhar deseje,
Fica a voz sempre partida,
É a palavra toda cinzas.

 

 


Y v e s  B o n n e f o y  é poeta, francês. Nascido no dia 24 de junho de 1923, na cidade de Tours. Estudou matemática e filosofia, tendo obtido o “baccaloréat” em 1941. Depois, na Universidade de Poitiers, e em seguida,a partir de 1943, na Sorbonne, prosseguirá os estudos de matemática superior, história das ciências e filosofia. Sua obra poética já foi traduzida para mais de vinte idiomas e é reconhecida pela crítica como comparável ao que de melhor se produziu na França em todos os tempos. Suas principais obras são “Devoção”, “Na Ilusão do Limiar”, “Início e Fim da Neve”, dentre outros.

Escrito por Bioque Mesito às 23h26
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[ d e n t e  d e  l e ã o ]                                               

 

 

Na beira do passeio
No fim do mundo
Olho amarelo da solidão

Cegos pés
Apertam-lhe o pescoço
No abdômen de pedra

 

Cotovelos subterrâneos
Empurram suas raízes
Para o húmus do céu

 

Pata canina ereta
Faz-lhe troça
Com o aguaceiro recozido

 

Contenta-o apenas
O olhar sem dono do passante
Que em sua coroa
Pernoita

 

E assim
A ponta de cigarro vai queimando
No lábio inferior da impotência
No fim do mundo

 

 


V a s k o  P o p a  é poeta, sérvio. Nascido em 29 de junho de 1922, em Grébenatz. É um dos mais representativos poetas contemporâneos da Iugoslávia. Suas obras já foram traduzidas para mais de 19 idiomas, sendo considerado uma figura marcante no cenário poético internacional.

Escrito por Bioque Mesito às 14h49
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[ b l u s a  f á t u a ]                                                   



Costurarei calças pretas
com o veludo da minha garganta
e uma blusa amarela com três metros de poente.
Pela Niévski do mundo, como criança grande,
andarei, donjuan, com ar de dândi.

Que a terra gema em sua mole indolência:
"Não viole o verde das minhas primaveras!"
Mostrando os dentes, rirei ao sol com insolência:
"No asfalto liso hei de rolar as rimas veras!"

Não sei se é porque o céu é azul celeste
e a terra, amante, me estende as mãos ardentes
que eu faço versos alegres como marionetes
e afiados e precisos como palitar dentes!

Fêmeas, gamadas em minha carne, e esta
garota que me olha com amor de gêmea,
cubram-me de sorrisos, que eu, poeta,
com flores os bordarei na blusa cor de gema
!

 

 


V l a d í m i r  M a i a k o v s k i  é poeta, russo. Nascido na aldeia de Bagdádi em 1893. Fez parte de vários movimentos revolucionários, entre eles os bolcheviques. Considerando um dos maiores poetas russos de todos os tempos.

Escrito por Bioque Mesito às 12h38
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[ d e s c r i ç ã o  d e  s i  m e s m o  j u n t o

a  u m  c o p o d e  w h i s k y  n o  a e r o p o r t o

d i g a m o s  e m  m i n e a p o l i s ]

 

 

Meus ouvidos ouvem cada vez menos das com-

versas, meus olhos vão ficando mais fracos,

mas não se fartaram.

Vejo suas pernas em minissaias, em calças com-

pridas ou tecidos voláteis,

Observo uma a uma, suas bundas e coxas, pen-

sativo, acalentado por sonhos pornô.

Velho depravado, é a cova que te espera, não os

jogos e folguedos da juventude.

Não é verdade, faço apenas o que sempre fiz,

compondo cenas dessa terra sob as ordens de

uma imaginação erótica.

Não desejo a estas criaturas, desejo tudo, e

elas são como o signo de uma convivência

extática.

Não é minha culpa se somos feitos assim,

metade contemplação desinteressada, e metade

apetite.

Se após a morte eu chegar ao Céu, lá deve ser

como aqui, só que me terei desfeito da obtu-

sidade dos sentidos e do peso dos ossos.

Tornado puro olhar, sorverei ainda as propor-

ções do corpo humano, a cor da íris, uma rua de

Paris em junho de manhãzinha, toda a in-

compreensível, a incompreensível multidão das

coisas visíveis.

 

 


C z e s l a w  M i l o s z  é poeta, polonês. Nascido em 1911. Durante a Segunda Guerra Mundial, Milosz estava em Varsóvia, combatendo os nazistas. Em 1960, Milosz assumiu a posição de professor de literatura na Universidade da Califórmia, em Berkeley, e naturalizou-se americano dez anos depois. Em 1980 recebeu o Prêmio Nobel de literatura. Seu livro de suma importante é “A Mente Cativa”.

Escrito por Bioque Mesito às 12h31
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[ o  h o m e m  d o  v i o l ã o  a z u l ]                      

 

 

I

Homem curvado sobre violão,

Como se fosse foice. Dia verde.


Disseram: "É azul teu violão,

Não tocas as coisas tais como são".


E o homem disse: As coisas tais como são

Se modificam sobre o violão".


E eles disseram: "Toca uma canção

Que esteja além de nós, mas seja nós,


No violão azul, toca a canção

Das coisas justamente como são".

 

 

II

 

Não sei fechar um mundo bem redondo,

Ainda que o remende como sei.


Canto heróis de grandes olhos, barbas

De bronze, mas homem jamais cantei.


Ainda que o remende como sei
E chegue quase ao homem que não cantei.


Mas se cantar só quase ao homem

Não chega às coisas tais como são,

 

Então que seja só o cantar azul

De um homem que toca violão. 

 

 


W a l l a c e  S t e v e n s  é poeta, norte-americano. Nascido em 1879 em Reading, Pensilvânia. Estudou na Universidade de Harvard, formado em direito, trabalhou longos anos numa companhia de seguros. Conservador, casmurro e de poucos amigos, ele sempre manteve separadas as atividades de executivo e de poeta. Seus principais livros são Harmonium” e “ Collected Poems”.

Escrito por Bioque Mesito às 12h12
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[ c e r e j a s  m e u  a m o r ]                                      

 

 

Cerejas, meu amor,
mas no teu corpo.
Que elas te percorram
por redondas.

E rolem para onde
possa eu buscá-las
lá onde a vida começa
e onde acaba

e onde todas as fomes
se concentram
no vermelho da carne
das cerejas...

 

 


R e n a t a  P a l l o t t i n i  é poeta. Possui vários livros publicados. Tem uma importante atuação na dramaturgia e Literatura infantil.

Escrito por Bioque Mesito às 16h45
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[ r ó i ]                                                                       



Rói qualquer possibilidade de sono
essa minimalíssima música
de cupins esboroando
tacos sob a cama

imagino a rede de canais
que a perquirição predatória
possa ter riscado
pelo madeirame apodrecido

se aguço o ouvido
capto súbito
o mundo dos vermes

 

 


C a r l i t o  A z e v e d o  é poeta, crítico, editor, carioca. Nascido no Rio de Janeiro em 1961. É um dos poetas mais ativos da geração 90. É co-editor da revista “Inimigo Rumor. Possui publicados “Collapsus Linguae “, “As Banhistas”, “Sob a Noite Física”, dentre outros.

Escrito por Bioque Mesito às 11h19
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[ e s q u e c i m e n t o ]



Esse de quem eu era e era meu,
Que foi um sonho e foi realidade,
Que me vestiu a alma de saudade,
Para sempre de mim desapareceu.

Tudo em redor então escureceu,
E foi longínqua toda a claridade!
Ceguei... tateio sombras... que ansiedade!
Apalpo cinzas porque tudo ardeu!

Descem em mim poentes de Novembro...
A sombra dos meus olhos, a escurecer...
Veste de roxo e negro os crisântemos...

E desse que era eu meu já me não lembro...
Ah! a doce agonia de esquecer
A lembrar doidamente o que esquecemos...!

 

 


F l o r b e l a  E s p a n c a  é poeta, portuguesa. Nascida em1894 em Vila Viçosa, Alto do Alentejo. Considerada uma das poetas mais líricas de seu tempo. Em vida lançou os seguintes livros “O Livro das Mágoas”  e “Livro de Sóror Saudade”. Às vésperas da publicação de seu livro “Charneca em Flor”, em dezembro de 1930, Florbela pôs fim à sua vida.

Escrito por Bioque Mesito às 11h09
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[ o  c a r r i n h o  d e  m ã o  v e r m e l h o ]


tanta coisa depende
de um

carrinho de mão
vermelho

esmaltado de água de
chuva

ao lado das galinhas
brancas

 

 


W i l l i a m  Ca r l o s  W i l l i a m s  é poeta, norte-americano. Nascido em 1883. Foi um dos poetas mais importante da poesia norte-americana. Sua poesia do imaginário influenciou e continua influenciando vários poetas.

Escrito por Bioque Mesito às 10h46
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[ s o n e t o ]                                                                     

 

 

Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
mas não servia ao pai, servia a ela,
e a ela só por prêmio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,
passava, contentando se com vê-la;
porém o pai, usando de cautela,
em lugar de Raquel lhe dava Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
lhe fora assim negada a sua pastora,
como se a não tivera merecida;

começa de servir outros sete anos,
dizendo:-Mais servira, se não fora
para tão longo amor tão curta a vida.

 

 


L u í s  V a z  d e  C a m õ e s  é poeta, português. Nascido em Lisboa em 1524. Considerado o maior poeta português de todos os tempos. Escreveu centenas de sonetos que se imortalizaram. É autor de “Os Lusíadas”, poema épico sobre o heroísmo dos portugueses.

Escrito por Bioque Mesito às 16h57
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[ c o i t o ]

 

 

Todos os movimentos
           do amor
           são noturnos
mesmo quando praticados
           à luz do dia

Vem de ti o sinal
           no cheiro ou no tato
que faz acordar o bicho
           em seu fosso:
           na treva, lento,
           se desenrola
                     e desliza
em direção a teu sorriso

Hipnotiza-te
com seu guizo
                     envolve-te
em seus anéis
corredios
                     beija-te
                     a boca em flor
e por baixo
           com seu esporão
           te fende te fode

           e se fundem
           no gozo

depois
desenfia-se de ti

           a teu lado
           na cama
           recupero a minha forma usual

 

 


F e r r e i r a  G u l l a r  é poeta, maranhense. Nasceu em 10 de setembro de 1930, na cidade de São Luís. É um dos criadores da Poesia Concreta no Brasil. Possui lançado os livros de poesias “A Luta Corporal”,  “Crime na Flora” “O Poema Sujo”, “Barulhos”, dentre outros.



Escrito por Bioque Mesito às 16h51
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[ a p e s a r  d e ]

 

 

E eu é que sou
A sapona a mulher macho
A Paraíba
A mandacarú
A mosca-morta
E
Toda imagem torta e
Avessa
De trégua em trégua
Exposta à tua mesa

Os carnívoros alimentam-se
Da minha carne
A poesia que jorro
Seca entranhas

E eu q sou
A rata desquarada
A vaca operária
A morte da tarântula vadia
A negra e esquálida alegria

Ninguém entende q
Mulher
Não é seio
Mas meio
Q mulher mais rende
Q é rendada
E a estranha beleza da fada
É esticar a corda estúpida da vida

E
Eu
A ovelha preta
A insone depressiva
“colho flores de acetileno”
de pétalas da alvura de uma lombriga

portanto coaxa
q o som do teu reino
é polido
apagado feito borracha
e ninguém entende
q mulher não é sexo
mas ato
e o meio
partido desse contato
é a alma da poeta
invertida.

 

 


J o r g e a n a  B r a g a  é poeta, maranhense. Formada em Filosofia pela Universidade Federal do Maranhão.Faz parte do Grupo Curare de Poesia. Possui lançado o livro de poesias “Janelas Que Escondem Espíritos”. manapoesia@ig.com.br / www.eternointerno.blogspot.com

Escrito por Bioque Mesito às 16h46
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[ v i s ã o ]

 

 

Os últimos dias correram frívolos.

Todos esperavam a notícia que não veio.

 

Os últimos dias trouxeram o acordo.

Todos se sentaram de frente pro mar

Como se nada mais houvesse que fazer.

 

O torso serenado de nossos cidadãos

Transformou-se em madeira, depois em pedra.

 

Ao longe, como um sonho, ouvia-se

O entoar de um hino, mais parecia um

trovão rouco e monolítico, na atmosfera

vazia em que o mundo se transformara

 

 


F e l i p e  U c i j a r a  é poeta, maranhense. Poeta da mais recente safra da poesia maranhense. É estudante de Psicologia na Universidade Federal do Maranhão. Vencedor do 18º Festival Maranhense de Poesia da Universidade Federal do Maranhão. www.centrovelhodavida.zip.net



Escrito por Bioque Mesito às 16h42
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[ p o n t e s  d e  m a d i s o n ]

           

                                                 for F

 

cada um tem a sua história

 

uns caminham

outros escrevem poemas

 

o problema está com os copistas

que vez por outra confundem os peritos

e já não se sabe mais quem construiu

a Tebas de 7 portas

 

 


A n t o n i o  A í l t o n  é poeta, maranhense. Formado em Letras pela Universidade Federal do Maranhão. Faz parte do Grupo Curare de Poesia. Possui lançado os livros “As Habitações do Minotauro” ( Poesia) e “Humanologia do Eterno Empenho” ( Ensaio ), ambos vencedores em concursos do "Prêmio Cidade de São Luís", Func/MA. ailtonpoiesis@yahoo.com.br /  poemasevendavais.zip.net



Escrito por Bioque Mesito às 16h24
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[ a  p e n ú l t i m a  c a s a ]             

 

 

1. eu não lerei o último
    poema meu
    talvez seja anacrônico
    ou até mesmo contrabandista

 

2. terá por certo a perfeita alusão
    de mim
    sem me desvendar

 

3. cicatrizes no peito
    olhos bem espantados
    2,20 m de curiosidade

 

4. suave como borboletas
    no cio
    metade eterno por todo tempo
    metade orgasmo por insatisfeito

  

 


B i o q u e  M e s i t o  é poeta, maranhense, nascido sob o sol de aquário em 3 de fevereiro de 1972. Possui participações em várias coletâneas de poesia. Faz parte do Grupo Curare de Poesia. Possui lançado o livro de poesias “A Inconstante Órbita dos Extremos”. bioquemesito@yahoo.com.br /www.centraldapoesia.zip.net / www.afila.zip.net

Escrito por Bioque Mesito às 14h04
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[ a  u m a  m u l h e r  a m a d a ]                             

 

 

Ditosa que ao teu lado só por ti suspiro!
Quem goza o prazer de te escutar,
quem vê, às vezes, teu doce sorriso.
Nem os deuses felizes o podem igualar.

Sinto um fogo sutil correr de veia em veia
por minha carne, ó suave bem-querida,
e no transporte doce que a minha alma enleia
eu sinto asperamente a voz emudecida.

Uma nuvem confusa me enevoa o olhar.
Não ouço mais. Eu caio num langor supremo;
E pálida e perdida e febril e sem ar,
um frêmito me abala... eu quase morro ... eu tremo.

 

 


S a f o  é poeta, grega. Nascida na Ilha de Lesbos, em 630 a.C. Sua poesia atravessou os séculos. A marca registrada de sua poesia é um erotismo envolvente. Em sua época a poesia era apresentada em performances sendo acompanhada por instrumentos musicais da época.

Escrito por Bioque Mesito às 10h30
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[ d o  p r a z e r  d o s  h o m e n s  c a s a d o s ]           


Mulheres minhas, infiéis, adoro amá-las:
Vêem meu olho em sua pelve embutido
E têm de encobrir o ventre já enchido
(Como dá gozo assim observá-las).

Na boca ainda o sabor do outro homem
Ela é forçada a dar-me tesão viva
Com essa boca a rir para mim lasciva
Outro caralho ainda no frio abdômen!

Enquanto a contemplo, quieto e alheio
Do prato do seu gozo comendo os restos
Esgana no peito o sexo, com seus gestos

Ao escrever os versos, ainda eu estava cheio!
(O gozo ia eu pagar de forma extrema
Se as amantes lessem este poema.)

 

 


B e r t o l t  B r e c h t  é poeta, dramaturgo, alemão. Nascido em Augsburg, Baviera, em 10 de fevereiro de 1898. Brecht foi um dos nomes mais influentes do teatro do século XX, não só pela criação de uma obra excepcional, mas também pelas inovações teóricas e práticas que introduziu. Sua influência, no entanto, não se restringe ao teatro, pois Brecht foi igualmente importante pelas novidades técnicas de sua poesia.

Escrito por Bioque Mesito às 10h25
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[ h a r m o n i a  v e l h a ]

 

 

O teu beijo resume
Todas as sensações dos meus sentidos
A cor, o gosto, o tato, a música, o perfume
Dos teus lábios acesos e estendidos
Fazem a escala ardente com que acordas o fauno encantador
Que, na lira sensual de cinco cordas,
Tange a canção do amor!

E o tato mais vibrante,
O sabor mais sutil, a cor mais louca,
O perfume mais doido, o som mais provocante
Moram na flor triunfal da tua boca!
Flor que se olha, e ouve, e toca, e prova, e aspira;
Flor de alma, que é também
Um acorde em minha lira,
Que é meu mal e é meu bem...

Se uma emoção estranha
o gosto de uma fruta, a luz de um poente -
chega a mim, não sei de onde, e bruscamente ganha
qualquer sentido meu, é a ti somente
que ouço, ou aspiro, ou provo, ou toco, ou vejo...
E acabo de pensar
Que qualquer emoção vem de teu beijo
Que anda disperso no ar...


 


G u i l h e r m e  d e  A l m e i d a  é poeta, ensaísta, tradutor, jornalista, paulista. Nascido em Campinas, em 24 de julho de 1890. Foi redator de vários jornais de São Paulo. Particpou da Semana de Arte Moderna de 1922, sendo um dos mais importantes para a mudança estética da poesia daquela época. Possui lançados os seguintes livros “Nós”, “Meu e Raça”, dentre outros.

Escrito por Bioque Mesito às 10h06
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[ a r a r a s  v e r s á t e i s ]

 

 

Araras versáteis. Prato de anêmonas.
O efebo passou entre as meninas trêfegas.
O rombudo bastão luzia na mornura das calças e do dia.
Ela abriu as coxas de esmalte, louça e umedecida laca
E vergastou a cona com minúsculo açoite.
O moço ajoelhou-se esfuçando-lhe os meios
E uma língua de agulha, de fogo, de molusco
Empapou-se de mel nos refolhos robustos.
Ela gritava um êxtase de gosmas e de lírios
Quando no instante alguém
Numa manobra ágil de jovem marinheiro
Arrancou do efebo as luzidias calças
Suspendeu-lhe o traseiro e aaaaaiiiii...
E gozaram os três entre os pios dos pássaros
Das araras versáteis e das meninas trêfegas.

 

 


H i l d a  H i l s t  é poeta, paulista. Nascida em Jaú, em 21 de abril de 1930. Sua postura nem sempre compreendida pela sociedade da época, escandalizava. Porém Hilda era assim e foi até o fim. Seus últimos anos de vida se tornou reclusa em sua fazenda. Possui lançados os seguintes livros “Ode Fragmentada”, “Roteiro do Silêncio”, “Sobre a tua Grande Face”, “Fluxo-Floema”, dentre outros.  

Escrito por Bioque Mesito às 09h52
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[ a  p u t a ]

 

 

Quero conhecer a puta.
A puta da cidade. A única.
A fornecedora.
Na rua de Baixo
Onde é proibido passar.
Onde o ar é vidro ardendo
E labaredas torram a língua
De quem disser: Eu quero
A puta
Quero a puta quero a puta.

Ela arreganha dentes largos
De longe. Na mata do cabelo
Se abre toda, chupante
Boca de mina amanteigada
Quente. A puta quente.

É preciso crescer esta noite inteira sem parar
De crescer e querer
A puta que não sabe
O gosto do desejo do menino
O gosto menino
Que nem o menino
Sabe, e quer saber, querendo a puta.

 

 


C a r l o s  D r u m m o n d  d e  A n d r a d e  é poeta, mineiro. Nascido em Itabira, em 31 de outubro de 1902. Drummond é um dos poetas brasileiros mais admirados, sua poesia apresenta um lirismo ímpar. É um dos expoentes da poesia modernista no Brasil. Possui lançados os seguintes livros “Alguma Poesia”, “A Rosa do Povo”, “Amar se Aprende Amando”, dentre outros.

Escrito por Bioque Mesito às 09h42
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[ e s p e l h o ]                                                  



Sou prateado e exato. Não tenho preconceitos.
Tudo o que vejo engulo no mesmo momento
Do jeito que é, sem manchas de amor ou desprezo.
Não sou cruel, apenas verdadeiro —
O olho de um pequeno deus, com quatro cantos.
O tempo todo medito do outro lado da parede.
Cor-de-rosa, malhada. Há tanto tempo olho para ele
Que acho que faz parte do meu coração. Mas ele falha.
Escuridão e faces nos separam mais e mais.
      
Sou um lago, agora. Uma mulher se debruça sobre mim,
Buscando em minhas margens sua imagem verdadeira.
Então olha aquelas mentirosas, as velas ou a lua.
Vejo suas costas, e a reflito fielmente.
Me retribui com lágrimas e acenos.
Sou importante para ela. Ela vai e vem.
A cada manhã seu rosto repõe a escuridão.
Ela afogou uma menina em mim, e em mim uma velha
Emerge em sua direção, dia a dia, como um peixe terrível.

 

 


S y l v i a  P l a t h  é poeta, norte-americana. Nascida em 27 de outubro de 1932, em Boston só se tornou conhecida após sua morte. Sylvia suicidou-se, depois de abandonada pelo marido, o também poeta Ted Hughes. Muitos apontaram Hughes como o principal motivo do suicídio da ex-esposa. O certo é que Sylvia era uma alma atormentada e já havia feito três tentativas de suicídio antes da separação. O primeiro livro de Sylvia Plath foi publicado em 1960. Possui publicados os seguintes livros “Ariel”, ”Árvores de Inverno”, dentre outros.

Escrito por Bioque Mesito às 17h49
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[ a  n o i t e  b e l a ]


Que canto levantou-se esta noite
que entretece
com o cristalino eco do coração
as estrelas

Que festa vernal
de coração
em núpcias

Fui

um charco de trevas

Hoje mordo
como uma criança a teta
o espaço

Hoje estou bêbado
de universo

 

 


G i u s e p p e  U n g a r e t t i  é poeta, egípcio. Nascido em Alexandria, em 1888, de pais italianos. Ungaretti viveu no Egito até 1912, quando se transferiu para Paris, a fim de estudar na Sorbonne. Nesse período, ele tomou contato com escritores e artistas plásticos de vanguarda, entre os quais Guillaume Apollinaire, Pablo Picasso, Giorgio de Chirico, Georges Braque e Amedeo Modigliani. Em 1914, Ungaretti vai para a Itália e no ano seguinte é convocado para lutar na Primeira Guerra Mundial. Seu primeiro livro de poemas é “O Porto Sepulto”. Ao lado de Eugenio Montale e Salvatore Quasimodo formam a mais alta trindade da poesia italiana no século XX.

Escrito por Bioque Mesito às 17h41
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[ a  g r a d e ]


Agora, a mansão à beira do lago já está
        concluída, e os trabalhadores estão
        começando a grade.
São barras de ferro com pontas de aço, capazes
        de tirar a vida de qualquer um que se
        arrisque sobre elas.
Como grade, é uma obra-prima e impedirá a
        entrada de todos os famintos e vagabundos
        e de todas as crianças vadias à procura de
        um lugar para brincar.
Entre as barras e sobre as pontas de aço nada
        passará, exceto a Morte, a Chuva e o Dia de
        Amanhã

 

 


C a r l  S a n d b u r g  é poeta, norte-americano. Nascido em 1878. Filho de imigrantes suecos (o pai era ferreiro), trabalhou desde cedo em diversas atividades: pedreiro, leiteiro, engraxate. Dessa experiência aprendeu muito sobre as mazelas do capitalismo. Sandburg escreveu vários livros de poesia, sem conquistar a atenção da crítica. Mas em 1916 lançou o volume "Poemas de Chicago", que lhe valeu reconhecimento internacional. Jornalista e também autor de textos de ficção, Sandburg ganhou o Prêmio Pulitzer em 1940 com uma biografia de Abraham Lincoln. Em 1951, ele voltou a receber o mesmo prêmio, desta vez com a reunião de seus poemas.

Escrito por Bioque Mesito às 17h32
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[ r e s e r v a  d e  c h u v a s ]                                   

 

 

Na escola, zombaram de minha pronúncia torta,
ameaçaram-me com canivetes no recreio.
Assisti a covardia crescer, aquietado no fundo da sala.
Durante anos, contive o veludo áspero da pata,
a soleira da pata, a vogal da pata.
Preparei a vingança pelas palavras.

Roubei o dízimo, enrolei o papel seda
dos versículos para fumar tuas promessas.
Pisei em teu rosto com a luz suja de um livro.
A neblina me perseguiu enfurecida
e não viu que estava nela.

Peço desculpas como uma criança,
as mãos algemadas
na inocência nociva.

Como enganar os gestos?
Minha vontade de abraçar
esgana.

Todos meus erros descendem do excesso,
não da penúria.

Deus, será que tua água
vem da sede do homem?
Será que nossa sede é potável?

As diferenças nos assemelham,
o único vizinho do mar é o abismo.
Estou extremamente perto
e morro distante.
Mora numa morte emprestada.

Cerca-me da cegueira,
tal relâmpago que acende o bosque
para as aves pousarem nele.

Cerca-me da cegueira,
desapegando do que não vi.

Cerca-me da cegueira,
a fidelidade do vento é testada no naufrágio.

Cerca-me da cegueira,
como uma fruta apanhada com os dentes.

Cega-me.
Meu desespero fracassou
ao passar a noite em claro.
Fez amizade com as sombras.

  

 


F a b r i c i o  C a r p i n e j a r  é poeta,  gaúcho. Mestre em Literatura Brasileira pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Nascido em 23 de outubro de 1972. Possui publicados os seguintes livros “As Solas do Sol”, “Um Terno de Pássaros ao Sul”, “Terceira Sede”.

Escrito por Bioque Mesito às 15h06
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[ e s s e  p u n h a d o  d e  o s s o s ]

 

 

Esse punhado de ossos que, na areia,
alveja e estala à luz do sol a pino
moveu-se outrora, esguio e bailarino,
como se move o sangue numa veia.
Moveu-se em vão, talvez, porque o destino
lhe foi hostil e, astuto, em sua teia
bebeu-lhe o vinho e devorou-lhe à ceia
o que havia de raro e de mais fino.
Foram damas tais ossos, foram reis,
e príncipes e bispos e donzelas,
mas de todos a morte apenas fez
a tábua rasa do asco e das mazelas.
E ai, na areia anônima, eles moram.
Ninguém os escuta. Os ossos choram.

 

 


I v a n  J u n q u e i r a  é poeta, crítico, ensaísta, carioca. Nascido em 3 de novembro de 1934. Considerado um dos grandes críticos de Literatura no Brasil. Sendo um dos poetas de destaque da poesia contemporânea. Possui publicados “Os Mortos”, “Três meditações na corda lírica”, “A Rainha Arcaica”, dentre outros.

Escrito por Bioque Mesito às 15h04
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[ m a d r i g a l  p a r a  u m   a m o r ]                     



Luz da Noite Lis da Noite
meu destino é te adorar.

Serei cavalo marinho
quando a lua semi fátua
emergir de meu canteiro
e tu tiveres saído
em meus trajes de luar.

Serei concha privativa,
turmalina, carruagem,
Mas só se tu, Luz da Noite,
teu delírio nesta margem
já quiseres desaguar.

(Não te faças tão ingrata
meu bem! Quedo ferido
e meus olhos são cantatas
que suplicam não me mates
em adunco anzol de prata!)

E quanto nós nos amamos
em nossa vítrea viagem
de geada e de serragem
pelo meio continente!

Luz da Noite Lis da Noite
meu destino é te seguir.

Meu inábil clavicórdio
soluça pela raiz,
e já pareces tão farta
que nem sequer onde filtra
meu lado bom te conduz:
Minha amiga vou fremindo
embebido em tua luz.

 



C a c a s o  é poeta, mineiro. Nascido no dia 13 de março de 1944, em Uberaba. Possui lançados os seguintes livros “A palavra cerzida”, “Beijo na boca”, “Na corda bamba”, dentre outros.

Escrito por Bioque Mesito às 14h38
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[ a  c i g a r r a  q u e  f i c o u ]                               


Depois de ouvir por tanto tempo, a fio,
As cigarras, bem perto ou nas distâncias,
Só me ficou no coração vazio
A saudade de antigas ressonâncias...

Todas se foram... bando fugidio
Em busca do calor de outras estâncias,
Carregando nas asas como um rio
Leva nas águas - seus desejos e ânsias...

E ainda cantaram na hora da partida:
Era um clamor dentro da madrugada...
Essa, entretanto, desgarrou daquelas,

E entrou, tonta de luz, na minha vida,
Porque sabia que era a mais amada,
E cantava melhor que todas elas...




O l e g á r i o  M a r i a n o  é poeta, pernambucano. Nascido em 24 de março de 1889. Sua poesia é bastante lírica. Ficou conhecido como o poeta das cigarras, um dos seus temas prediletos. Estreou na vida literária com o volume Ângelus. Foi Secretário da Embaixada Brasileira na Bolívia. Considerado o Príncipe dos Poetas Brasileiros.

Escrito por Bioque Mesito às 14h25
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[ i n v e n t á r i o ]                                    

 

 

descarto tudo que é presente em meu passado

no google indecisos narcisos  procurando espelhos

há em mim nuances experimentais de um louco

cometendo o pecado de lamber nuas maçãs de desejo

algumas poucas coisas bastam para eu ser feliz

os lábios de minha mulher me fazem dormir satisfeito

nem sempre sou a mesma coisa que desconheço

metal absorto perdido nas periferias do inferno

guerras começam pelo descaso que fazemos dos outros

caos pedaços de biscoitos espalhados sobre a mesa

estão presos os inventores de minha felicidade

mesmo assim continuo buscando minhas asas

preparo as moedas para dar ao barqueiro

puta que pariu desliguei o mundo 

 

 


B i o q u e  M e s i t o  é poeta, maranhense, nascido sob o sol de aquário em 3 de fevereiro de 1972. Possui participações em várias coletâneas de poesia. Faz parte do Grupo Curare de Poesia. Possui lançado o livro de poesias “A Inconstante Órbita dos Extremos”. bioquemesito@yahoo.com.br /www.centraldapoesia.zip.net / www.afila.zip.net

Escrito por Bioque Mesito às 11h33
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Até logo, até logo, companheiro,                                            

Guardo-te no meu peito e te asseguro:

O nosso afastamento passageiro

É sinal de um encontro no futuro.

 

Adeus, amigo, sem mãos nem palavras.

Não faças um sobrolho pensativo.

Se morrer, nesta vida, não é novo,

Tampouco há novidade em estar vivo.

 

 


S i e r g u é i  I e s s i ê n i n  é poeta, russo. Nascido em 1885. Trabalhou como tipógrafo e participou de vários grupos literários. Adepto da esquerda do partido social-revolucionário, apoiou a Revolução Russa. Este foi seu último poema, antes de cometer suicídio, cortando os pulsos em um quarto de hotel de Leningrado.

Escrito por Bioque Mesito às 21h08
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[ t e a t r o s ]

 

 

O conto é sobre os grafitos no tablado

onde uma letra de um metro se aboleta,

e à noite convidam das tabuletas

as pupilas dos anúncios pintalgados.

 

O automóvel pinta os lábios brancos

da mulher desbotada de Carrière;

dois fox-terriers em chamas arrancam

peliças dos passantes na carreira.

 

E assim que uma pêra furtaluz

rasgou na sombra as lanças dos ataques,

sobre os ramos das frisas com flores de pelúcia

dependuraram-se pesadamente os fraques.

 

 


V l a d í m i r  M a i a k o v s k i  é poeta, russo. Nascido na aldeia de Bagdádi em 1893. Fez parte de vários movimentos revolucionários, entre eles os bolcheviques. Considerando um dos maiores poetas russos de todos os tempos. 

Escrito por Bioque Mesito às 21h07
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Uma vez mais, uma vez mais

Sou para você

Uma estrela. Ai do marujo que tomar

O ângulo errado de marear

Por uma estrela:

Ele se despedaçará nas rochas,

Nos bancos sob o mar.

Ai de você, por tomar

O ângulo errado de amar

Comigo: você

Vai se despedaçar nas rochas

E as rochas hão de rir

Por fim

Como você riu

De mim.

 

 


V i e l i m i r  K h l é b n i k o v  é poeta, russo. Estudou física, matemática e ciências naturais na Universidade de Kazan. Foi um dos poetas russos que se dedicou exclusivamente à poesia, visto que sua vida funcional sempre foi de pequenos salários.

Escrito por Bioque Mesito às 21h06
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Mão de esquerda contra a direita.

Tua alma e minha alma −rentes.

 

Fusão, beatitude que abrasa.

Direita e esquerda −duas asas.

 

Roda o tufão, o abismo fez-se

Da asa esquerda à asa direita.

 

 


M a r i n a  T z v i e t á i e v a  é poeta, russa. Nascida em 1892. Opôs-se violentamente à Revolução Russa. Residiu em Berlim, Praga e Paris. Seus poemas são em média concisos, severos, musicais e muito líricos.

Escrito por Bioque Mesito às 21h05
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                    Fez

                       ca

                      

                           bagos de uva

                                      pássaros

                                      pássaros

                                      passam

                                      pass

                                      cem

 

 


V a s s í l i  K a m i ê n s k i  é poeta, russo. Nascido em 1884. Foi um dos primeiros aviadores russos. Foi organizador do grupo cubo-futuristas. Seus poemas seguem um experimentalismo consciente e radical.

Escrito por Bioque Mesito às 21h02
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[ l a b i r i n t o ]                                                         

 

 

Não haverá nunca uma porta. Estás dentro

E o alcácer abarca o universo

E não tem nem anverso nem reverso

Nem externo muro nem secreto centro.

Não esperes que o rigor de teu caminho

Que teimosamente se bifurca em outro,

Tenha fim. É de ferro teu destino

Como teu juiz. Não aguardes a investida

Do touro que é um homem e cuja estranha

Forma plural dá horror à maranha

De interminável pedra entretecida.

Não existe. Nada esperes. Nem sequer

A fera, no negro entardecer.  

 

 


J o r g e  L u i s  B o r g e s  é poeta, argentino. Nascido em 1899 na cidade de Buenos Aires. É considerado o maior poeta argentino de todos os tempos e, sem dúvida, um dos mais importantes escritores da literatura mundial. Possui lançados os livros “O Aleph”, “História Universal da Infâmia”, “O Livro dos Seres Imaginários”, “Elogio da Sombra”, dentre outros.   



Escrito por Bioque Mesito às 10h42
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atrai até si

o inseto que se

distrai

 

quanto menos

dele dista, mais

o hipnotiza

 

quando, imprevista, dispara

sua língua-raio para

(adesiva) capturá-lo

 

e o engole

antes mesmo

de matá-lo

 

minha

companhia

de trabalho

 

 


A r n a l d o  A n t u n e s  é poeta, músico, paulista. Nascido em 1960. Possui publicados os seguintes livros “Ou E”, “Tudos”, “As Coisas” e “Palavra Desordem”.



Escrito por Bioque Mesito às 10h34
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[ i n s t a l a ç ã o  t e r r e s t r e  p a r a  b i o q u e  m e s i t o ]

 

 

A vida não guarda segredo

Velho, irmão, moça que dá e não pede

A vida não está guardada

 

A ponta dos meus dedos

Batem numas letras que são

Coisas diferentes, inaugurando

Cada uma delas um mundo diferente

 

Olho para essas letras, tecla de computador

E cismo na vida, cismo nas moças que dão

E não pedem, cismo no meu velho corpo

Cismo no meu irmão que não nasceu

 

Não atino com o sentido da vida

Nem mesmo entendo porque tanta procura

A vida nos procura

No amor, no leito de morte,

Ela vai sorrindo a todos e dizendo: tudo bem?

 

 


F e l i p e  U c i j a r a  é poeta, maranhense. Poeta da mais recente safra da poesia maranhense. É estudante de História na Universidade Estadual do Maranhão. Vencedor do 18º Festival Maranhense de Poesia da Universidade Federal do Maranhão. www.centrovelhodavida.zip.net



Escrito por Bioque Mesito às 10h22
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[ t e m p o s  m o d e r n o s  II ] 

 

 

E vamos sangrando nas ruas

suor dos esquálidos sonhos.

Nada se perderia

se ouvidos e lábios.

Mas o relógio assegura

a estagnação dos gestos

espontâneos.

E a máquina a máquina a máquina

não pode parar.

E gotejamos nosso sonho ferido

em seus labirintos

e nem já não sabemos

se felizes ou autômatos.

 

 


M o r a n o  P o r t e l l a  é poeta, piauiense. Nascido em Piripiri em 26 de novembro de 1956. Aos 9 anos mudou-se para Caxias-MA. A partir de 1973 muda-se para São Luís-MA, fixando moradia. Possui lançados os livros de poesias “Cavalo-Marinho” e “Itinerário do Caos”.

Escrito por Bioque Mesito às 10h16
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[ d e c l a r a ç ã o ]

 

 

o poeta não dança na ciranda financeira

nem sabe conduzir um táxi

porque não apresenta solução

para o país em queda

 

mas sabe fotografar o futuro

com suas lentes de aumento

porque olha através do infinito

e registra no escuro

a lágrima que ficou por dentro

 

 


E d u a r d o C a n a v i e i r a  é poeta, maranhense. Nascido em São Luís em 19 de janeiro de 1971. Formado em Jornalismo pela Universidade Federal do Maranhão. Participou na década de 90 do Grupo Poeme-se. Possui lançado o livro de poesias “Alguma Trilha Além”.



Escrito por Bioque Mesito às 10h05
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[ c o t i d i a n o  d e  u m  p o e t a ]                       

 

 

acordo às nove e meia da manhã

com os olhos no sol que dormiu comigo

pego um copo com água

me olho no espelho escovo os dentes

me sento em uma mesa

como um pão com chocolate frio

aos poucos vou me sentindo no mundo

minuciosamente vou em direção ao quarto

observo a velha máquina de escrever

arrumo algumas folhas e começo a trabalhar

a mesma cor metafísica de sempre

a névoa começa a dançar em meus neurônios

me sinto como se estivesse com ressaca

tento estralar os dedos como forma de abstração

uma pessoa me telefona está tudo bem

volto para o vazio não sei me convencer

estou perdido nem o noticiário é interessante

a tarde namora meu telhado

estou confuso sai a primeira linha

muito inocente desenho a chuva no campo

a lua pára atrás da minha janela

é tão estranho que a noite não me sorria

ouço prelúdios de brisas

aprendo a conviver com a verdade já é tarde

minha cama é o caminho da eternidade

amanhã quem sabe eu me ouça menos

e a poesia fale

 

 


B i o q u e  M e s i t o  é poeta, maranhense, nascido sob o sol de aquário em 3 de fevereiro de 1972. Possui participações em várias coletâneas de poesia. Faz parte do Grupo Curare de Poesia. Possui lançado o livro de poesias “A Inconstante Órbita dos Extremos”. bioquemesito@yahoo.com.br /www.centraldapoesia.zip.net

Escrito por Bioque Mesito às 12h27
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[ o  h o m e m  e  a s  c o i s a s ]                           


 

As coisas não se submetem
à nossa vestidura;
na máscara que somos
as coisas nos conjuram.

Por que não escutá-las,
tão sáfaras e puras,
como flores ou larvas,
estranhas criaturas?

Por que desprezá-las
no sopro que as transmuda
com os olhos de favas,
fechados na espessura?

Por que não escutá-las
na linguagem mais dura,
comprimidas as asas
na testa que as vincula?

Despimos a armadura
e a viseira diurna;
a linguagem resvala
onde as coisas se apuram.

Recônditas e escravas
na cava da palavra,
são fiandeiras escuras
ou áspides sequiosas.

As coisas não se submetem
à nossa vestidura.

 

 


C a r l o s  N e j a r  é  poeta, ficcionista, crítico e tradutor, gaúcho. Nascido em Porto Alegre no dia 11 de janeiro de 1939. É bacharel de Direito pela Pontifícia Universidade Católica-RS. É membro da Academia Brasileira de Letras. Possui publicados os seguintes livros “Sélesis”, “Livro do Tempo”, “O Campeador e o Vento”, “Os Viventes”, “O Chapéu das Estações”, dentre outros.

Escrito por Bioque Mesito às 13h59
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[ a c i m a  d e  q u a l q u e r  s u s p e i t a ]         

 

         a poesia está morta

 

mas juro que não fui eu  

 

eu até que tentei fazer o melhor que podia para salvá-la

 

imitei diligentemente augusto dos anjos paulo torres car-
    los  drummond de andrade   manuel bandeira   murilo
    mendes vladimir maiakóvski  joão cabral de melo neto
    paul éluard  oswald de andrade   guillaume apollinaire
    sosígenes costa bertolt brecht augusto de campos

 

não adiantou nada

 

em desespero de causa cheguei a imitar  um  certo (ou
    incerto) josé paulo paes poeta de
ribeirãozinho estrada
    de ferro araraquarense

 

porém ribeirãozinho mudou  de nome a estrada  de ferro
    araraquarense foi  extinta  e  josé paulo paes  parece
    nunca ter existido

 

nem eu

 

 


J o s é  P a u l o  P a e s  é poeta, ensaísta, tradutor, editor, paulista. Nascido em 1926. Um dos marcos de sua poesia é o olhar irônico e desmistificador. Possui publicados “A Poesia está morta mas juro que não fui eu”, “Um por Todos”, dentre outros.   

Escrito por Bioque Mesito às 16h23
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[ a r t e  p o é t i c a ]                                                

 

 

Não quero morrer não quero

apodrecer no poema

que o cadáver de minhas tardes

não venha feder em tua manhã feliz

 

          e o lume

que tua boca acenda acaso das palavras

         − ainda que nascido da morte −

  some-se

aos outros fogos do dia

                        no presente veloz

 

Nada que se pareça

a pássaro empalhado múmia

de flor

dentro do livro

            e o que da noite volte

volte em chamas

             ou em chagas

 

vertiginosamente como o jasmim

que num lampejo só

ilumina a cidade inteira 

 

 


F e r r e i r a  G u l l a r  é poeta, maranhense. Nasceu em 10 de setembro de 1930, na cidade de São Luís. É um dos criadores da Poesia Concreta no Brasil. Possui lançado os livros de poesias “A Luta Corporal”,  “Crime na Flora” “O Poema Sujo”, “Barulhos”, dentre outros.

Escrito por Bioque Mesito às 15h48
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[ c a n t o s  c x x ]

 

 

Tentei escrever o PARAÍSO

 

Não se mova

         Deixe falar o vento

               esse é o paraíso.

 

Deixe os Deuses perdoarem

              o que eu fiz

Deixe aqueles que eu amo tentarem perdoar

              o que eu fiz.

 

 


E z r a  P o u n d  é poeta, crítico de literatura, tradutor, norte-americano. Nascido em 30 de outubro de 1885. Considerado um dos poetas que mais contribuiu para o desenvolvimento da poesia moderna. Dentre seus livros mais importantes, destaca-se “Os Cantos”, um poema-épico da modernidade.

Escrito por Bioque Mesito às 15h11
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[ s i s t e m a  s o m b r i o ]

 

 

De cada um destes dias negros como velhos ferros,

e abertos pelo sol como grandes bois vermelhos,

e apenas sustidos pelo ar e pelos sonhos,

e desaparecidos irremediavelmente e de súbito,

nada substituiu as minhas perturbadas origens,

e as desiguais medidas que circulam no meu coração

aí se forjam de dia e de noite, solitariamente,

e abarcam desordenadas e tristes quantidades.

 

Assim, pois, como um vigia tornado insensível e cego,

incrédulo e condenado a uma dolorosa espreita,

diante da parede na qual cada dia do tempo se une,

os meus rostos diferentes se apóiam e se encadeiam

como grandes flores pálidas e pesadas

tenazmente substituídas e defuntas.  

 

 


P a b l o  N e r u d a  é poeta, chileno. Nascido em 1904. Um dos maiores poetas do século XX. Em 1971 foi ganhador do Prêmio Nobel de Literatura. Possui publicados “Cem Sonetos de Amor”, “As Residências”, “Canto Geral”, dentre outros. 

Escrito por Bioque Mesito às 15h10
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